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Reabilitação

Em Marabá, Chácara Emaús completou oito anos tirando pessoas das garras do crack e do alcoolismo

Tudo começou em 2009, com a ajuda do empresário Leonildo Rocha, que comprou o espaço onde hoje funciona o Centro de Recuperação de Dependentes Químicos

Por Eleutério Gomes – de Marabá

Eles são pessoas de idades entre 20 e 40 anos, em geral do sexo masculino, mas envelhecidos pelo sofrimento e pelo vício, têm baixíssima ou nenhuma escolaridade, são, em sua maioria, pedreiros, auxiliares de pedreiro, pintores, carpinteiros ou auxiliares de serviços gerais, um ou outro tem profissão diferente, foram abandonados pela família e já viveram nas ruas. Oitenta por cento deles foram escravizados pelo crack e 20%, pelo álcool.

Esse é o perfil das pessoas que chegam quase diariamente à Chácara Emaús – Centro de Recuperação de Dependentes Químicos – em busca de ajuda. Querem ter a vida de volta, mas não sabem como começar ou como recomeçar.

De tanto ver essas pessoas amanhecerem dormindo no vão sob a torre da Igreja de São Francisco de Assis, onde era pároco, em 2009 o padre Mário José Maestri decidiu que era hora de ajudá-las, mas não sabia como nem por onde começar, pois precisava de um local que pudesse abrigá-las com dignidade.

De conversa em conversa, o empresário Leonildo Rocha, – já falecido – acabou sabendo do projeto do padre Mário e abraçou a causa, adquiriu uma grande área que estava à venda no Bairro Amapá – Complexo Cidade Nova –, onde já havia uma casa que serve até hoje de alojamento.

Solidariedade

“De início ganhamos 10 mil camisetas da Nokia e começamos a primeira campanha em busca de recursos. Vendemos todas e reformamos a casa e compramos o mobiliário”, lembra padre Mário, que, de doação em doação, de parceria em parceria, ampliou a chácara, construiu mais dois prédios e uma bela capela desenhada pelo arquiteto Honório Aires, tudo sem desembolsar um centavo.

Hoje ele continua contando com doações de 40 sócios colaboradores, como denomina, metade deles empresários, a outra metade, “pessoas de bom coração” que procuram o centro voluntariamente.

O trabalho começou com 12 dependentes químicos e hoje prossegue com 26. É um número pequeno, mas suficiente para que a instituição, dentro de suas possibilidades, possa oferecer conforto, boa alimentação e qualidade de vida, a fim de ajudar a livrá-los da teia das drogas.

“Aqui eles têm atividade diariamente. Temos uma rotina com horários obedecidos rigorosamente, do levantar ao deitar”, descreve padre Mário que, indagado se há algum tipo de sanção para quem desobedece as regras, disse que não há punição, mas uma conversa franca, “sempre baseada na palavra de Deus, a Bíblia”.

O trabalho feito com os dependentes consiste em evangelização, mas não só no catolicismo, sacerdotes de outras religiões também participam, reafirmando a liberdade religiosa; laborterapia, o tratamento pelo trabalho; e a integração da convivência social.

“Muitos chegam aqui e a gente vê que não tinham horário para nada, não respeitavam o espaço do outro, não sabiam conviver em sociedade, enfim”, conta o padre, afirmando que depois que entram da chácara começam a mudar para melhor.

Choro de mãe

Um desses que está mudando para melhor é Beija-Flor – nome fictício para manter o anonimato da pessoa em tratamento. Hoje com 28 anos, ele, que é ajudante de pedreiro, conta que trabalhava em uma obra quando o próprio patrão, que era traficante, o que ele veio saber depois, o contratou como “avião”, entregador. “Daí para que eu usasse foi rápido”, conta Beija-Flor, que chegou ao fundo do poço após ter vendido tudo o que tinha em casa, até roupas e chegou a morar nas ruas por oito meses. “Um dia fui à casa da minha mãe, ela, desconfiada, trancou todos os quartos e foi tomar banho. Aproveitei e roubei as vasilhas de Tuperware que estavam no armário. Fui vender para comprar crack”, conta.

Ele lembra que, quando voltou para casa, viu a mãe chorando muito. “Foi o que me fez procurar a chácara. Nunca vou esquecer aquela cena”. Estou aqui há dois meses e tenho certeza de que vou chegar aos nove meses (tempo do tratamento)”, afirma ele, dizendo que ali se sente entre amigos e em paz.

Fogão de lenha

Outro que também está há dois meses na Chácara Emaús é Pardal. Trinta e cinco anos, motorista, ele conta que experimentou a primeira pedra de crack oferecida por um cunhado. Daí para frente, dominado pelo vício, passou a vender tudo o que via em casa, móveis, eletroeletrônicos, eletrodomésticos e até o fogão. “Minha mulher cozinhava na lenha”, lembra, com tristeza.

A esposa de Pardal recebia uma pensão, um valor razoável que dava para sustentar a casa e viver tranquilamente, mas, ele chegou ao ponto de começar a sacar o dinheiro do banco para comprar crack e, assim, chegou ao fundo do poço. “Acabei nas ruas”, conta.

Certo dia, porém, uma irmã dele o socorreu. “Liguei para ela, eu estava com fome e pedi dinheiro para comprar uma quentinha. Minha irmã levou pra mim e me convidou para, naquela noite, dormir na casa dela”, lembra Pardal que, pela manhã, foi convidado pela irmã a procurar uma vaga no Emaús. “Aceitei e deu certo, estou aqui faz dois meses. Depois que cheguei aqui, vi minha vida melhorar e a vida da minha família também. Até minha mãe ganhou peso, ela emagreceu muito, de tanta preocupação com a minha vida”, declara Pardal.

Padre Mário comemora, fica alegre cada vez que um interno, após os nove meses de tratamento, vai embora e toma novo rumo na vida. “Fico mais feliz ainda quando eles aparecem aqui, empregados, com a família, muitos de carro ou moto, e dão seu testemunho aos que estão em tratamento”.

Festa

No próximo dia 29, quando se comemora São Pedro, vai ter festa junina na chácara, pelo segundo ano consecutivo. “Vai ter quadrilha, música ao vivo, comida típica, arraial, brincadeiras, mas nada de bebida alcoólica. E toda a renda será para obras na chácara”, avisa o padre, convidando toda a comunidade. O Centro de Recuperação fica na Rua das Cacimbas, 123. Bairro Amapá. As missas de domingo pela manhã são abertas à comunidade e os colaboradores também participam delas.

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