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Música

Artigo: “A culpa deve ser do sol”.

Leia o que pensa o Juiz Líbio Moura sobre o novo e polêmico disco de Chico Buarque

Por juiz Líbio Araújo Moura (*) 

Chico voltou. E para aqueles que justificaram a canção “Desaforos”, ele veio com o faro apurado como resposta. Voltou melhor ainda, como se em plena forma no “Jogo de Bola”.

Não há o que escrever de diferente ao tecer comentários de algumas das nove canções do novo álbum, sete inéditas e duas regravações. São os sinais habituais, com passagens que fazem remissões literárias refinadas e populares ao mesmo tempo.

Dentre eles um verso que é uma pérola: “oh mãe pergunta ao pai quando ele vai soltar a minha mão”. Simples, terno, suave e que remete a tantas mensagens que o velho Chico vem nos mandando nos últimos anos. O filho que quer alçar seu próprio voo.

O trecho é da canção “Massarandupió”, praia do litoral baiano reservada aos naturalistas, e que o poeta escreveu para uma valsa entregue pelo neto Chico Brown, quiçá o mesmo que deseja soltar a mão do pai, o também músico Carlinhos Brown, para mostrar seu talento próprio.

Desde o disco “As cidades”, Chico Buarque tem feito homenagem ao parceiro precoce.

Na canção “A ostra e o vento”, do filme homônimo, a música nasceu da cantiga de embalar o neto: “vai Chiquinho vai, Chiquinho vem” e daí o compositor fez o vento passar nas estrofes.

Na série de documentários dirigida por Roberto Oliveira, a partir de 2005, Chico Buarque desabafou sobre o preconceito que o xará Brown sofria nos ditos condomínios da elite branca carioca: “eles pensam que são brancos” – disse (DVD Saltimbancos).

Nas entrelinhas, a homenagem não veio apenas em “Massarandupió”, mas na canção que dá nome ao disco: “As Caravanas”.

“Tem que bater, tem que matar” a turba – em geral de negros suburbanos – que desce dos morros cariocas para ocupar a praia de Copacabana e acabar com a tranquilidade da “gente ordeira e virtuosa”. Essa gente são os mesmos brancos, dos mesmos condomínios. Mas a culpa deve ser do sol e de mais ninguém.

É sempre o Chico, com a extraordinária ironia na crítica ao cotidiano surrado, cansado.

E dele também nasce um elo para o amante rejeitado pela menina que não gosta de meninos (Blues pra Bia). Ou do marido, já inicialmente criticado pelas vozes autorizadas da cultura brasileira, por deixar “mulher e filhos” em nome do grande amor em “Tua Cantiga”. Ah, quem nunca…

O certo é que há costumeiramente uma euforia quando Chico escreve, canta ou se manifesta. E novamente ele veio falando sobre a réstia da sociedade: a lésbica, o negro, o adúltero, o jogador – e porque não também o cantor – ultrapassado pelo tempo.

E a excitação se explica porque se sabe que dele realça uma coerência opinativa de nossos tempos. E de todos os tempos.

(*) – Libio Moura – Juiz de Direito no estado do Pará – comarca de Castanhal.

Comentários ( 2 )

  1. O texto me surpreendeu, senhor juiz! Pensei em ver uma critica política com alguma defesa e ataque, foi de uma sensibilidade e transparência que me deu pressa de comprar o cd do buarque. Parabéns

  2. Parabéns pelo comentário! Continue resenhando o Chico. Pela prosa, Vc conhece o assunto – autor e obra – e consegue traduzir de forma clara o trabalho desse grande brasileiro.

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