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Política e religião

A um ano da eleição, todos os caminhos levam a Belém

Nesta semana, a capital do Pará transformou-se em cenário de peregrinações: uma com milhares de católicos durante a passagem de Nossa Senhora do Nazaré, e outra, de políticos em busca de mais popularidade.

Nesta semana, a capital do Pará transformou-se em cenário de peregrinações: uma com milhares de católicos durante a passagem de Nossa Senhora de Nazaré, e outra, de políticos em busca de mais popularidade. Não fosse pela primeira romaria, a segunda provavelmente não aconteceria.

O Círio de Nazaré é um dos maiores eventos religiosos do mundo – estimativas oficiais falam em 2 milhões de devotos nas ruas de Belém. Por sua vez, os políticos querem surfar nessa onda, mostrar agendas positivas, tirar selfies com populares e aproveitar que a atenção dos católicos está voltada para a cidade.

Apareceram três nomes: o presidente Michel Temer (PMDB), o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), e o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC) – os dois últimos são pré-candidatos à Presidência da República. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva também cogitou uma visita, mas acabou desistindo.

Temer foi o primeiro a pisar na capital e deu um agrado aos devotos de Nossa Senhora de Nazaré, padroeira do Estado. Em evento no centro de Belém, o peemedebista anunciou a doação de um terreno da União à Igreja Católica. A área, de cerca de 10 mil m², pertencia ao Exército e era um antigo pleito da arquidiocese paraense – que foi dona do imóvel até 1849.

Desde 2010, congressistas do Pará criam emendas parlamentares para beneficiar a troca de dono do terreno. Segundo Dom Alberto Taveira Corrêa, arcebispo de Belém, o dinheiro era entregue diretamente para o Exército, sem participação da Igreja – foram R$ 43 milhões. Faltava ainda a assinatura do presidente.

Temer classificou a cessão do terreno como “um ato religioso, e não administrativo”. Ressaltou também a rapidez com que o processo foi resolvido: foram sete dias para que todas as questões burocráticas – há anos paradas nos escaninhos do Planalto – fossem resolvidas e ele pudesse anunciar a doação às vésperas do Círio.

“Vejam, esse ato foi consolidado em sete dias desde que caiu na minha mão. Nosso governo é um governo rápido. Toda vez que você pratica um ato dessa natureza, você está fazendo uma religação espiritual”, disse Temer, em evento ocupado por líderes religiosos e políticos locais, como Jader Barbalho, ex-governador do Pará, e seu filho Helder, hoje ministro da Integração Nacional.

A agenda positiva, em semana de Círio, buscava melhorar a imagem do presidente na região Norte. Pesquisa Datafolha de setembro apontou que 93% dos moradores da área avaliam o governo Temer como regular, ruim ou péssimo. Apenas 4% acham a gestão boa ou ótima.

Críticas da Igreja

Também foi um agrado à Igreja Católica, que vem reiteradamente criticando Temer por meio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Em agosto, por exemplo, a Igreja repudiou o decreto presidencial que liberou a Reserva Nacional de Cobre e seus Associados (Renca), no Pará. Disse que ação “cedia aos grandes empresários da mineração” e que não houve consulta aos povos indígenas.

Nesta sexta, a CNBB se voltou novamente contra Temer e divulgou relatório com críticas à forma como seu governo vem tratando a violência contra indígenas. “No governo de Michel Temer”, diz o relatório, “há um processo em curso de ofensiva, articulado com a bancada ruralista do Congresso Nacional, que busca retirar direitos já conquistados (por povos indígenas) na Constituição de 1988”.

Essa foi apenas a segunda visita de Temer a um Estado da região Norte desde que assumiu o governo, em 12 de maio do ano passado, quando herdou o cargo de Dilma Rousseff (PT), destituída por impeachment. Ele não respondeu a perguntas da imprensa.

Para Edir Veiga, doutor em ciências políticas e professor da Universidade Federal do Pará, o aceno de Temer à Igreja, na semana do Círio de Nazaré, “quis mostrar uma agenda positiva, alegrar a Igreja nesse momento de homenagem a padroeira do Estado. É uma aposta que faz para tentar melhorar sua popularidade, que pode ter um salto caso a economia volte a crescer”.

Já Hilton Cesario Fernandes, cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, acredita que a doação tenha mais efeito de consolidar alianças locais do que melhorar a imagem de Temer na região. “Ele só quer sobreviver politicamente e precisa se segurar para não perder poder depois do mandato. Ele precisa fortalecer essas lideranças locais. É um movimento que vai se repetir, para que depois do mandato ele não fique abandonado. A popularidade não dá mais para recuperar”.

Bolsonaro corre sozinho

Outro que buscou a multidão de Belém nesta semana foi o deputado Jair Bolsonaro, pré-candidato da direita conservadora.

No aeroporto, ele foi recebido por milhares de pessoas, como um “popstar”. Em suas falas, Bolsonaro voltou a temas recorrentes em seus discursos: pediu a prisão de Lula, prometeu o fim restrição ao porte de armas no país, fez elogios à ditadura e críticas à imprensa. Evangélico, o parlamentar falou que, caso eleito, vai respeitar todas as religiões e que admira “essa festa tão bonita que é o Círio de Nazaré”.

Pesquisa Datafolha divulgada nesta semana mostrou Bolsonaro na segunda posição em intenções de voto para presidente, com 16%. Lula vem em primeiro (36% ) e Marina Silva em terceiro (14%).

Bolsonaro não se encontrou com políticos importantes da região, como os da família Barbalho, o prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho, ou o governador do Pará, Simão Jatene – ambos PSDB. O deputado foi recebido por seu colega Éder Mauro (PSD), ex-delegado no Pará, que foi quem bancou a visita.

O parlamentar conservador deu uma palestra na cidade – o evento acabou em confusão. Foram distribuídos 8 mil ingressos, mas o espaço só comportava mil pessoas. Do lado de fora, o público era formado principalmente por jovens e adolescentes.

Para o cientista político Edir Veiga, Bolsonaro tem grande potencial de votos entre os jovens da região Norte, “porque ele tem respostas simples para problemas complexos, como a violência. Ele acha que a melhor forma de combatê-la é matando bandido ou tornando o rito jurídico mais simples, por exemplo. A juventude alienada, que não discute politica de forma profunda, encontra nele um referencial, um super-herói”.

Já Hilton Cesario Fernandes acredita que Bolsonaro, quando viaja pelo país, está correndo praticamente sozinho nessa pré-campanha, por conta da indefinição de quais serão seus concorrentes em 2018. “Não se sabe se Lula será candidato (por conta de sua condenação por corrupção, ainda sem decisão da segunda instância). O PSDB não se definiu entre Geraldo Alckmin ou Doria. Marina Silva não está fazendo pré-campanha. Com isso, Bolsonaro está competindo sozinho e, onde ele vai, suas falas polêmicas repercutem”, diz o professor.

João Doria e os empresários

O prefeito de São Paulo, João Doria, desembarcou em Belém nesta sexta, sem a recepção calorosa de Bolsonaro. Foi recebido por empresários e ganhou o título de cidadão da capital paraense. Esse tipo de homenagem tem sido usado pelo tucano para justificar viagens país afora. Em São Paulo, há quem critique o método, dizendo que o político se ausenta da administração da cidade para compromissos não relacionados ao seu cargo de prefeito.

Doria afirma que não é “ainda” pré-candidato à Presidência. Um de seus concorrentes para ser o protagonista no PSDB é o governador Geraldo Alckmin, seu padrinho político. O prefeito defende que o nome da sigla na disputa seja escolhido por meio de prévias, no início de 2018.

Em evento com empresários, Doria fez suas tradicionais críticas ao PT e também elogios ao Pará e ao Círio de Nazaré. “Contem comigo para levantar a bandeira do Pará e do Brasil”, afirmou. Depois pediu para que os presentes cantassem o Hino Nacional e o hino do Estado. Neste sábado, o tucano participou do Círio de Nazaré em um barco da cantora Fafá de Belém, uma das maiores celebridades paraenses.

Para Hilton Cesario Fernandes, o tucano está “testando” sua imagem durante suas viagens. “Ele está tentando se colocar como uma alternativa, como um plano B caso Alckmin não seja candidato por algum motivo. O PT está fazendo a mesma coisa com o (ex-prefeito de São Paulo) Fernando Haddad”.

A visibilidade do Círio

Em 2014, a região Norte correspondeu a apenas 8% do total do colégio eleitoral brasileiro – 10,8 milhões de votos. O Sudeste ficou com a maior fatia e representou 44% (ou 62 milhões); e o Nordeste, 27% (38,3 milhões de votos).

Por conta dessa importância menor em número de votos, os postulantes à Presidência não devem priorizar a região em suas viagens de campanha. “Os candidatos costumam ir às grandes cidades dessa área, até por uma questão de logística e porque, para eles, não vale a pena chegar em cidades menores”, diz Cesario Fernandes.

Segundo ele, o Círio de Nazaré é um dos eventos que mais reúnem pessoas no país – daí sua relevância política. “É o momento de aproveitar a visibilidade do Círio, que é importante nacionalmente e localmente. A mídia está voltada para a cidade. É comum politico aparecer para tirar foto, que depois vai mostrar em propaganda, em vídeo na internet. É como aquela foto com o papa que político gosta de mostrar. Ele não tem contato efetivo nenhum com o papa nem com a cúpula católica, mas a foto representa que ele é importante”, diz o professor.

Por outro lado, o prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho, afirmou que as presenças de Temer, Bolsonaro e Doria não têm relação com a religião. “Não dá para misturar o Círio de Nazaré com política, né? Eu não faço essa ligação. O que houve foi uma bela coincidência”, disse.

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