Crise na saúde mental aumenta procura por curso de Psicologia

No Pará, é a formação mais concorrida da UFPA nos últimos dois anos. E Parauapebas ganhará quarta faculdade de Psicologia agora em 2025.

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“Brasil é o 4º país mais estressado do mundo, com 42% da população relatando esse sentimento”, anunciou o relatório global 2024 do World Mental Health Day. “Registros de ansiedade entre crianças e jovens superam os de adultos pela primeira vez no Brasil”, destacou a Folha de São Paulo, em manchete de um ano atrás.

Agora em 2025, os dados da Previdência Social mostram que, no ano passado, 472.328 trabalhadores brasileiros se afastaram do trabalho por motivo de doença mental, um recorde absoluto em uma década. Antes disso, o governo federal já informava que, somente de janeiro a junho de 2024, o SUS havia realizado 13,9 milhões de atendimentos psicológicos.

E assim as notícias pelo País afora revelam o quanto vai mal a saúde mental do brasileiro e que se agravou bastante a partir da pandemia da covid-19, no ano de 2020. Com esse agravamento, não à toa começou-se a observar também o interesse cada vez maior da população pela graduação em psicologia ao ponto de desbancar cursos tradicionais, como os de medicina e direito, em alguns Estados, como no Pará.

Em 2024 e neste ano, o curso de psicologia da Universidade Federal do Pará (UFPA) foi o mais concorrido da instituição. Em 2024, foram 120,87 candidatos por vaga. Este ano, a procura aumentou, com 160,17 candidatos por vaga. Em outras universidades federais, como a de Goiás, o curso também liderou a concorrência agora em 2025, enquanto que nas universidades de São Paulo (USP) e de Santa Catarina (UFSC) somente não foi mais disputado que medicina.

Em Parauapebas, as universidades públicas ainda não oferecem o curso de psicologia e o jeito para quem deseja seguir a profissão é se mudar para outra cidade ou buscar as faculdades particulares. São três as que oferecem o curso em Parauapebas. Todas são reconhecidas pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), e parecem já não ser suficientes para atender a demanda, tanto é que, ainda neste ano, uma quarta faculdade será instalada na cidade.

“A gente observa que a grande busca pelo curso de psicologia é refletida aqui no cenário local parauapebense”, atesta o psicólogo Tássio Costa, para quem a chegada de mais uma faculdade é bem-vinda “uma vez que o mercado local apresenta grande demanda, e se a gente pensar na região de Carajás como um todo a necessidade por profissionais é ainda maior”.

Tássio Costa é mestre em Ensino em Saúde pela Universidade do Estado do Pará (Uepa), especialista em Psicologia Social e há dez anos é professor de uma das faculdades em Parauapebas. Ele está entre os 553.057 psicólogos em todo o Brasil, dos quais 8.052 no Pará, segundo dados mais recentes do Conselho Federal de Psicologia (CFP).

São números que ainda estão aquém das necessidades impostas pela modernidade, pois mostram que o Brasil conta com apenas 2,5 psicólogos para cada mil habitantes, um quadro que não deve demorar a mudar diante da acelerada procura pela profissão.

Que loucos, que nada!

Até pouco tempo atrás, era comum psicólogos e psiquiatras serem vistos como “médicos de loucos”, um tabu quebrado pela conscientização da população de que depressão, ansiedade, transtornos são doenças que podem afetar qualquer pessoa e que encontram nesses profissionais o devido tratamento.

Com a saúde mental cada dia mais bombardeada pelos problemas modernos, a psicologia ganhou mais importância na prevenção da saúde e promoção do bem-estar. E os psicólogos começaram a sair dos seus consultórios para trabalhar na coletividade.

“Acredito que a gente já tenha conseguido transpor aquela ideia de que psicólogo só trata de doença – como diz o senso comum – de loucura. Cada vez mais a psicologia vem sendo uma ciência que está inserida nas áreas sociais e da saúde. Então, a gente tem pensado cada vez mais sobre como contribuir para que as pessoas vivam melhor, com mais qualidade de vida, mais preocupadas com a sua saúde mental e física”, explica Tássio Costa.

E mais do que nunca são as escolas públicas e privadas a exigir maior presença de psicólogos em seus quadros funcionais diante do avanço de problemas comportamentais e mentais sobre crianças e adolescentes. Contudo, nesse campo, a psicologia ainda precisa do reconhecimento tanto do poder público quanto do privado, apesar dos avanços.

“Historicamente, a profissão acaba por ocupar alguns espaços de atuação com muita luta, como tem sido, por exemplo, contemporaneamente, a inserção do psicólogo nas escolas públicas, que já é lei, entretanto não é realidade na maioria das cidades em nosso País”, atesta Tássio Costa, para quem a “pressão” social tende a mudar esse quadro.

“A gente tem ocupado cada vez mais espaço porque o cidadão tem finalmente tido mais contato, principalmente através das políticas públicas, com o nosso trabalho. Esse cidadão percebendo os efeitos positivos da psicologia acaba se empoderando e solicitando cada vez mais a oferta, então, o movimento da sociedade faz uma pressão positiva e necessária para que a gente esteja realmente inserido nas políticas públicas”, diz o psicólogo.

Da elite à universalização

A grande procura pelo curso de psicologia revela nada mais que a preocupação de muitos jovens com a direção tomada pela sociedade. E eles querem fazer a diferença. Aline de Sousa, 26 anos, reside em Eldorado dos Carajás e não abriu mão de se formar em psicologia, mesmo tendo que pegar a estrada para estudar em Parauapebas, onde cursa o 9º ano em uma das faculdades do município.

“Sempre tive o desejo de ajudar as pessoas e a vontade de contribuir para um mundo melhor. Acredito que o suporte psicológico é essencial. No entanto, ao estudar a área, percebi que a saúde mental é influenciada por muitos fatores além da atuação do psicólogo. Questões sociais, econômicas e culturais também exercem um grande impacto, tornando esse cuidado algo muito mais amplo do que apenas a nossa profissão pode abarcar”, avalia a futura psicóloga, que pretende se especializar na área de políticas públicas.

Também no 9º semestre de psicologia, Jocel Barreto, 38 anos, acompanha “com muita atenção” o agravamento da saúde mental no Brasil e no mundo. “Acredito que, embora seja um desafio complexo, é possível minimizar esse problema com maior acesso à informação, desmistificação da psicoterapia e fortalecimento de políticas públicas de saúde mental. Penso que o autocuidado, a educação emocional e o apoio adequado são caminhos fundamentais para lidar com essa realidade”, diz ele. 

E está justamente na universalização da psicologia, para que seja acessada por todas as camadas sociais, um dos grandes desafios a serem vencidos. “Apesar de a psicologia estar se tornando menos elitizada, ela ainda não é plenamente acessível a toda a população”, observa Aline, que considera fundamental ampliar a oferta dos serviços psicológicos e repensar as políticas públicas de promoção de qualidade de vida.

“Também considero essencial a valorização da profissão, o combate aos estigmas em relação à psicoterapia e a promoção de mais informação sobre saúde mental. O desconhecimento da população sobre o tema ainda é um grande obstáculo, dificultando tanto a busca por ajuda quanto a compreensão da importância do cuidado psicológico”, avalia Aline.

Num mundo de isolamento social, cobranças excessivas no trabalho e confusões mentais, Jocel acredita na tecnologia para cuidar das pessoas. “Após me formar, pretendo atuar na área de educação socioemocional, oferecendo atendimento on-line com abordagem da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)”, conta o acadêmico. “Sempre me interessei por compreender o comportamento humano e acredito no poder da escuta como uma ferramenta de transformação”.

Texto: Hanny Amoras (Jornalista – MTb/PA 1.294)

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