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Brasil

Festa na aldeia Gavião para celebrar vitória no ensino médio

Única cacique mulher no Pará, Kátia Tonkyre dá exemplo de boa gestão e motivação para membros de sua comunidade
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O que motiva um grupo de jovens da Nação Indígena Gavião a concluir o ensino médio sem sair da aldeia, localizada no município de Bom Jesus do Tocantins, a 50 km de Marabá a escola construída dentro da reserva, em forma de maloca, com a natureza ao redor, certamente foi determinante para manter o interesse dos alunos nos estudos. E para ressaltar a importância do contato com o meio ambiente, a professora, algumas vezes, leva a aula para a plantação ou à beira do rio.

A estratégia de relacionar o conteúdo da proposta da matriz curricular à realidade da aldeia Akrãkikatêjê durante as aulas foi montada pela cacique Kátia Tonkyre, para cumprir a promessa feita em 2016, quando a turma foi formada, de que todos os estudantes matriculados iriam se empenhar ao máximo para concluir o ensino médio, por meio da metodologia do Projeto Mundiar, implantado  pela Secretaria de Estado de Educação (Seduc). O Mundiar visa corrigir a distorção escolar idade/série, além de reduzir a repetência e a evasão de alunos.

O compromisso de Kátia Tonkyre foi cumprido: 19 dos 21 indígenas da turma do Mundiar participaram da cerimônia de formatura nesta sexta-feira (15), no Território Indígena da reserva Mãe Maria, da nação Gavião Akrãkikatêjê, localizada a 22 quilômetros da sede do município de Bom Jesus do Tocantins. Apenas dois estudantes não concluíram os estudos porque se mudaram para outra aldeia.

HOMENAGEM
A solenidade de formatura da turma do Mundiar emocionou os participantes. Foi uma festa com os rigores da cultura da aldeia, em dia de festa. Os índios se pintaram e entoaram cânticos de agradecimento na língua-mãe do Povo Gavião.

A cerimônia ocorreu na Escola Hôpryre Ronoré Jopikti Payaré, cujo nome é uma homenagem ao cacique Payaré, pai de Kátia Tonkyre, pioneiro na luta que tornou autônoma a nação Gavião Akrãkikatêjê. Pela dimensão da festa, não resta dúvida de que a educação formal faz parte dessa autonomia. “Temos nossa sabedoria ancestral, mas precisamos ter acesso ao conhecimento da educação formal do kupên (homem branco) para defender nosso território e manter nossa cultura viva”, disse Kátia Tonkyré.

PORTA PARA A UNIVERSIDADE
Os estudantes concluíram o ensino médio em 2017. Seis dos 19 concluintes já chegaram ao ensino superior, em faculdades que funcionam em Marabá. Segundo Kátia, isso é resultado “de um longo trabalho, como idealizou meu pai, que sonhou com a autonomia do nosso povo”.

Joseane Baia Akrãkikatêjê, caloura do curso de Pedagogia, foi uma das indígenas que concluíram estudos pelo Mundiar. Ela morava em Tucuruí, município de origem do Povo Gavião, que foi remanejado para Bom Jesus do Tocantins após a construção da hidrelétrica. “Eu estudava na outra aldeia, em Tucuruí, mas vim concluir o ensino médio aqui, pois conheci o Mundiar quando visitei minha irmã. Gostei muito, porque a gente não ficava só nos livros, mas se assiste a vídeos, tem teatro, apresentações de trabalhos, o que torna o aprendizado mais fácil. Vou me formar e voltar para minha aldeia, para ser professora”, diz Joseane Baia.

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Além da nação Gavião Akrãkikatêjê, outras etnias foram atraídas pelo Mundiar, como os Guarani e os Tembé. Tamari Tembé saiu de outra aldeia, todos os dias, para assistir às aulas na aldeia Akrãkikatêjê, “Muitas vezes a pé, com muitas dificuldades, mas nunca pensei em desistir, pois estava sem estudar há mais de um ano, e as aulas na aldeia da Kátia são do modo que nosso povo gosta, com respeito a nossos costumes e a nossa cultura”. Tamari Tembé é calouro de Administração.

MUDANÇAS NA ALDEIA
A Escola Hôpryre Ronoré Jopikti Payaré é bilíngue. Todos os estudantes têm aula também na língua Akrãkikatêjê – uma forma de manterem a cultura e os costumes. Além do Mundiar, 60 estudantes estão matriculados no ensino fundamental regular. “Aqui não nos importamos com prédios, mas com o conhecimento que é transmitido ao nosso povo, e esse estudo é de muita qualidade. Nosso povo aprendeu muito. Meninas que eram tímidas, hoje se expressam muito bem”, frisou a cacique Kátia.

Quinze professoras indígenas e não indígenas da Seduc estão lotadas na aldeia Akrãkikatêjê. Há o Projeto Mundiar e estudantes no sistema regular. Na aldeia, cerca de 60 estudantes estão na escola, matriculados da educação infantil ao 9º ano do fundamental.

A professora da turma do Mundiar, Loide de Souza e Silva, usou um provérbio chinês para expressar o sentimento ao ver seus alunos formados. “Sempre fica um pouco de perfume nas mãos de quem oferece flores. É assim que me sinto nesse momento especial. Partilhei conhecimento, mas também aprendi muito com essa experiência com o Povo Akrãkikatêjê”, ressaltou.

200 TURMAS 4ª URE

A turma do Mundiar que concluiu os estudos da educação básica é uma das seis que o projeto mantém em aldeias indígenas (quatro em Bom Jesus do Tocantins e duas em Jacundá). Em toda a região da 4ª Unidade Seduc na Escola (URE) há 200 turmas do Mundiar. A coordenadora do projeto da URE, Elisabeth Mota, destacou no evento que a metodologia foi muito bem aceita pela nação Gavião, principalmente na aldeia Akrãtekitakêjê.

Além da representante da Seduc, participaram da cerimônia na aldeia representantes do Conselho Indígena Missionário (Cimi), Fundação Nacional do Índio (Funai) e Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa).

A resposta à pergunta que abriu esta matéria extrapola os registros da festa de formatura dos Gavião Akrãtekitakêjê, e se revela não só pela alegria explícita da aldeia, pela chegada de seis jovens indígenas à universidade, mas pelo significado de autonomia coletiva que a educação representa para o povo da Reserva Mãe Maria.

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