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Propina

Em coletiva, PF e Ibama detalham início meio e fim da Operação Concisor

Em relação promíscua com madeireiros, servidores se passavam por fiscais e avisavam sobre as operações do órgão ambiental. Confira os áudios.
Por Eleutério Gomes – de Marabá

A Polícia Federal deflagrou, na manhã de hoje (31), a Operação Concisor, com objetivo de coibir crimes ambientais no Estado. Cerca de 60 agentes cumpriram 15 mandados judiciais: quatro de prisão, cinco de busca e apreensão e seis de conduções coercitivas, bem como ordens judiciais de afastamento de servidores da função pública, em Marabá, Parauapebas, Breu Branco, Canaã dos Carajás e Eldorado dos Carajás.

Embora a PF mantenha sob sigilo os nomes dos envolvidos, o Blog levantou que o empresário de Parauapebas Sidney Carlos Osterman, mais conhecido como “Macarrão”, proprietário da Madeiras Rio Verde, de cujo escritório foram apreendidos computadores e documentos, foi conduzido coercitivamente para prestar esclarecimentos. Em Marabá havia mandados de prisão temporária para três servidores do Ibama , além de um de condução coercitiva. Os servidores envolvidos são os de prenome Noleto, Ramon, Cláudio e Marinho, mas, segundo o Blog apurou, apenas três destes foram presos. O quarto prestou esclarecimentos e foi liberado.

A operação, que contou com o apoio de informações do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis), durante toda a investigação, tem entre os presos, servidores do órgão ambiental suspeitos de repassar informações para madeireiras e outras pessoas fiscalizadas pela autarquia federal em troca de vantagens indevidas ou dinheiro em espécie.

Os investigados vão responder por corrupção passiva, ativa e concussão. Se condenados, podem pegar penas de prisão de até oito anos de reclusão, além de multa.

Sobre a operação, Polícia Federal e Ibama concederam entrevista coletiva na Delegacia da PF em Marabá, dando conta de que as investigações, iniciadas há mais de um ano, partiram de uma suspeita levantada dentro da própria Gerência Executiva do Ibama, em Marabá, de que servidores poderiam estar passando informações privilegiadas a empresários madeireiros denunciados por crimes ambientais. Essas suspeitas foram motivadas pelo fato de, ao chegarem ao local em que estariam acontecendo as irregularidades, geralmente serrarias, os fiscais encontrarem estas fechadas, com as máquinas paradas e sem movimentação de pessoas, como se ali nada estivesse acontecendo. Fato que se repetiu inúmeras vezes. “Isso causou prejuízo fortíssimo para as atividades do Ibama durante a fiscalização”, disse o delegado Josiel Brito, responsável pela investigação.

Ele contou ainda, que na manhã de hoje, durante o cumprimento dos mandados, quando teve acesso aos aparelhos celulares dos envolvidos, constatou, ao verificar mensagens de WhatsApp, um “íntimo relacionamento entre fiscalizados e fiscalizadores”, embora não se tratem de fiscais e sim de servidores de outras atividades que se faziam passar por fiscais. “Alguns desses fiscalizados estavam envolvidos em outras atividades irregulares, transportando madeira em meio a caminhão de tijolos e diversas outras”, detalhou o delegado regional de Investigação e Combate ao Crime Organizado, Rômulo Rodovalho.

Hildemberg da Silva Cruz, gerente executivo do Ibama em Marabá, que assumiu o órgão em fevereiro do ano passado, disse que as suspeitas foram levantadas ainda pela gerente que o antecedeu, a qual comunicou à Polícia Federal que várias fiscalizações em madeireiras que exploravam a espécie castanheira e também em áreas de preservação nunca eram pegas em flagrante.

“Na minha gestão intensificamos e mostramos claramente que, quando o Ibama chegava até o local de empreendimentos que seriam alvo de fiscalização, encontrava tudo fechado, não conseguindo flagrar o crime ambiental sendo cometido”, reforçou o gerente.

Segundo Hildemberg, uma das graves consequências disso foi que, em 2016, de 40 ações de fiscalização desencadeadas, baseadas em denúncias concretas, metade caiu por terra devido ao vazamento de informações. De acordo com Rodovalho, as recompensas não eram pagas em valores altos e muitas vezes se traduziam em benefícios pessoais como abastecimento de veículos, entre outros, “embora qualquer propina seja condenável”, resultando em grande prejuízo “para o meio ambiente e ao órgão fiscalizador”.

Durante as investigações, segundo Rômulo Rodovalho, a PF começou a observar o estreitamento das relações entre madeireiros ilegais e os servidores do Ibama: “Isso, por si só, de ter várias ligações e íntimo contato de amizade, amistosidade, é como se um policial fosse amigão de um criminoso. Já é uma conduta suspeita, além das provas que conseguimos angariar durante tanto tempo de investigação”.

Indagado se os madeireiros conduzidos estão contribuindo com as investigações, o delegado afirmou que alguns se negam a  admitir envolvimento, mas disse que a PF, em um caso, identificou uma pessoa “que era uma peça que faltava no quebra-cabeça” da investigação, e esta delatou toda a atividade da propina e confessou que pagou aos servidores pelo vazamento de informações.

Relação promíscua
A PF também divulgou três áudios que provam a relação promíscua entre servidores e madeireiros. No primeiro, um dos servidores presos e um amigo fazem chacota a respeito do desmatamento no País. Nos outros dois, mais um servidor, também preso, avisa um madeireiro sobre operações na região e pede R$ 200,00 a título de empréstimo. Confira:

Áudio 1

Amigo – Tá de folga?
Servidor – Nós estamos indo ali resolver um problema…
Amigo – Qual o problema? É mineração ou é madeireira?
Servidor – (risos) Rapaz, pare com isso, rapaz (risos).
Amigo – Se o Brasil um dia precisasse de oxigênio e dependesse
de vocês pra sobreviver, com uma árvore em pé, virava o deserto
do Saara. Era mais fácil plantar árvore no Saara.
Servidor – Se o Brasil perder oxigênio, nós estamos f… (risos)

Áudio 2

Servidor – Nós estamos retornando amanhã.
Madeireiro – Estão retornando pra Marabá. Hoje não tem ninguém pra cá, não? Só amanhã?
Servidor – Só amanhã.
(…)
Servidor – Aí eu tô indo também acompanhando eles, segunda-feira a gente vai pra Anapu ou então São Félix do Xingu.
Madeireiro – É? Essa turma que saiu daí ainda vem hoje à noite e ainda dorme em Marabá?
Servidor – É, dorme em Marabá. E aí segunda-feira é que nós vamos pra um lado e pra outro. Pois é, hein? Tem jeito de me emprestar aí 200 reais, que as nossas diárias não saíram e nesse período de meio-dia eu tava passando amanhã aí.
Madeireiro – Tá, aí tu me avisa aí, manhã…
Servidor – Quando eu tiver no posto, né?
Madeireiro – É. E eu vejo o que é que eu faço.

Áudio 3 

Madeireiro – Fale, doutor.
Servidor – O rapaz falou que vinha cedo. Não veio não?
Madeireiro – Foi nada.
Servidor – Aquele negócio que eu te falei já começou.
Madeireiro – É? E não sabe pra que lado vai?
Servidor – Já começou aqui mesmo.
(…)
Madeireiro – Mas… chegou a equipe de fora?
Servidor – É.
Madeireiro – Vai cumprir as demandas todas.

Confira as fotos:

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